Vozes que constroem memórias: estudo revela que recém-nascidos formam lembranças verbais
Desde as Primeiras Horas de Vida Pesquisa publicada na revista eLife mostra que bebês com apenas alguns dias de vida conseguem armazenar e recuperar memórias de palavras quando associadas à identidade de quem fala, lançando nova luz sobre as origens

Imagem: Reprodução
Muito antes de pronunciar a primeira palavra, o cérebro humano já está aprendendo a ouvir, distinguir e lembrar. Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (24), na revista científica eLife, demonstra que recém-nascidos de apenas zero a quatro dias de vida são capazes de formar memórias verbais e recuperá-las minutos depois, desde que a voz do falante ajude a separar diferentes experiências sonoras. A descoberta sugere que mecanismos fundamentais da memória episódica começam a operar desde o nascimento.
A pesquisa foi conduzida por Emma Visibelli, Ana Fló, Eugenio Baraldi e Silvia Benavides-Varela, da Universidade de Pádua (Itália), do Padova Neuroscience Center e da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Hospital Universitário de Pádua. O trabalho recebeu financiamento do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC) por meio do projeto IN-MIND.
O estudo oferece “evidências convincentes da formação precoce de memórias verbais episódicas” e demonstra que a identidade do falante constitui uma característica crucial para a construção dessas lembranças desde o nascimento.
O experimento com os primeiros dias de vida
Os pesquisadores recrutaram 32 recém-nascidos saudáveis, com idade entre zero e quatro dias. Durante os testes, os bebês permaneceram deitados em seus berços ou nos braços das mães enquanto ouviam pseudopalavras — palavras artificiais sem significado real, como “mita”, “pelu” e “voli”.
A equipe utilizou a técnica de espectroscopia funcional no infravermelho próximo (fNIRS), método não invasivo capaz de monitorar alterações na oxigenação cerebral associadas à atividade neural.
O protocolo experimental foi dividido em três etapas:
1. Familiarização – o bebê escutava repetidamente uma palavra.
2. Interferência – uma segunda palavra era apresentada.
3, Teste – a palavra original ou uma palavra nova era reproduzida novamente.
A diferença crucial em relação a estudos anteriores foi que a palavra interferente era pronunciada por um falante diferente. Os cientistas queriam saber se a mudança de voz ajudaria o cérebro neonatal a separar uma experiência auditiva da outra.
O cérebro reconheceu palavras familiares
Os resultados foram surpreendentes. Quando os bebês ouviam novamente a palavra apresentada inicialmente, seu cérebro reagia de forma diferente da reação observada diante de uma palavra inédita.
A atividade cerebral foi significativamente maior para palavras novas do que para palavras familiares em regiões associadas ao processamento da linguagem, incluindo o giro frontal inferior (IFG) e o giro temporal superior (STG) dos hemisférios esquerdo e direito.
Para os autores, essa diferença constitui uma assinatura neural clara de reconhecimento.
“Os recém-nascidos distinguiram palavras familiares de palavras novas mesmo após a exposição a sons potencialmente interferentes”, relatam os pesquisadores.
O achado indica que os bebês não apenas armazenaram a informação verbal, mas conseguiram recuperá-la alguns minutos depois.
O papel decisivo da voz
A principal descoberta do estudo foi que a identidade do falante funciona como uma espécie de marcador contextual.
Quando a palavra interferente era pronunciada por outra pessoa, o cérebro parecia interpretar a mudança de voz como o início de um novo episódio acústico, reduzindo a sobreposição entre as memórias e evitando o esquecimento.
Segundo os autores, a voz ajuda o cérebro neonatal a registrar simultaneamente “o que foi dito” e “quem disse”.
“Os resultados indicam que a identidade do falante é uma característica-chave na formação de memórias verbais desde o nascimento”, escrevem Visibelli e colegas.
Essa associação entre conteúdo e fonte é conhecida na neurociência como ligação fonte-conteúdo (source-content binding), considerada um precursor da memória episódica madura.
As origens da memória episódica
A memória episódica é a capacidade de recordar eventos específicos da vida, incluindo contexto, pessoas e circunstâncias. Tradicionalmente, acreditava-se que esse sistema emergia apenas meses ou anos após o nascimento.
O novo estudo não afirma que recém-nascidos possuem memória episódica completa. Entretanto, fornece evidências de que um de seus componentes fundamentais — a associação entre informação e contexto social — já está presente nas primeiras horas de vida.

“Observamos evidências de uma ligação precoce entre conteúdo e fonte (o que–quem), que pode ser considerada um aspecto fundacional do processamento episódico”, afirmam os autores.
Linguagem, evolução e desenvolvimento cerebral
As implicações vão além da memória.
A aquisição da linguagem depende da capacidade de armazenar e comparar sons ouvidos repetidamente. Se os recém-nascidos conseguem organizar experiências auditivas usando informações sobre quem fala, isso pode representar uma vantagem evolutiva crucial para o aprendizado linguístico.
Os pesquisadores destacam que áreas cerebrais ativadas durante o reconhecimento incluem regiões tradicionalmente associadas ao processamento fonológico e semântico no hemisfério esquerdo, além de áreas do hemisfério direito envolvidas no reconhecimento de vozes e sinais sociais.
Essa combinação sugere que o cérebro neonatal processa simultaneamente informações linguísticas e sociais, integrando-as em uma única representação mental.
Possíveis aplicações futuras
Além de ampliar o entendimento sobre as origens da linguagem humana, os resultados podem abrir novos caminhos para a identificação precoce de dificuldades cognitivas e linguísticas.
O resumo da pesquisa destaca que problemas na capacidade de integrar diferentes características de uma experiência — processo conhecido como feature binding — poderiam ser detectados muito antes do aparecimento de dificuldades de linguagem observáveis clinicamente.
Para Silvia Benavides-Varela e sua equipe, compreender como as memórias surgem nas primeiras horas de vida é essencial para desvendar os mecanismos que sustentam o desenvolvimento cognitivo humano.
A conclusão é notável: antes mesmo de enxergar o mundo com clareza ou pronunciar qualquer som inteligível, o cérebro do recém-nascido já registra experiências, reconhece vozes e começa a construir as primeiras peças da memória que, ao longo da vida, moldará a linguagem, a aprendizagem e a própria identidade.
Referência
Emma Visitelli, Ana Fló, Eugênio Baraldi, Silvia Benavides-Varela (2026) Processamento episódico verbal em recém-nascidos eLife 14 :RP109096. https://doi.org/10.7554/eLife.109096.3